No passado dia 15 de maio de 2026 realizou-se, no Arciprestado de Cinfães/Resende, a Recoleção Mensal do Clero da Diocese de Lamego, encontro de oração, formação e convivência fraterna que reuniu catorze sacerdotes e um diácono nas instalações da Igreja da Imaculada Conceição, em Resende.
A orientação desta jornada esteve a cargo do Pe. Joaquim Correia Duarte, ilustre sacerdote natural de Resende, professor, investigador e membro da Academia Portuguesa da História desde 2007. Ao longo do seu ministério pastoral, exerceu a paroquialidade em diversas comunidades da Diocese de Lamego, particularmente na zona pastoral de Resende, sendo amplamente reconhecido pela sua sólida formação intelectual, pela vasta cultura histórica e pela simplicidade e profundidade com que comunica.
A manhã iniciou-se em ambiente de recolhimento e oração com a celebração da Hora Intermédia de Tércia, segundo a Liturgia das Horas, predispondo interiormente todos os participantes para um verdadeiro retiro espiritual.
Sob o tema «O Padre e a paróquia no século XXI», o conferencista proporcionou uma reflexão de grande riqueza pastoral e espiritual, marcada pela sabedoria da experiência e por um realismo sereno face aos desafios que hoje se colocam ao ministério sacerdotal.
Na introdução da sua exposição, lançou aos presentes um sugestivo convite à felicidade, recordando que o sacerdote tem razões profundas para viver com alegria: é amado por Deus, chamado a participar na missão da Igreja fundada por Jesus Cristo e enviado a anunciar ao mundo a mensagem da salvação. Sublinhou que Cristo nunca abandona aqueles que escolheu e que o ministério sacerdotal se concretiza essencialmente em três grandes dimensões: a pregação da Palavra, a celebração da Eucaristia e o exercício da caridade.
Inspirando-se no pensamento de Papa Francisco, destacou a urgência de construir comunidades vivas, missionárias, atentas e solidárias, semelhantes à Igreja primitiva. Recordando as palavras de São Paulo Apóstolo — «Vós sois o Corpo de Cristo, e cada um é membro desse Corpo» — salientou a importância da corresponsabilidade dos leigos e da dimensão sinodal da vida eclesial.
Neste contexto, defendeu a necessidade de estruturas paroquiais participativas, como o Conselho Pastoral Paroquial e o Conselho para os Assuntos Económicos, sublinhando que as pessoas colaboram com maior entusiasmo quando são chamadas a participar nas decisões e quando existe transparência na administração dos bens da Igreja. Referiu ainda que cada comunidade deve promover, pelo menos, grupos de catequese, liturgia e ação caritativa, bem como equipas de apoio aos cuidados e manutenção dos espaços paroquiais.
Ao evocar o filme «29 Irmãos», rodado em Resende e inspirado na história do Padre Abel, mostrou como a união e a solidariedade comunitária podem realizar obras extraordinárias. «Podemos ser frágeis individualmente, mas juntos somos muito fortes», afirmou. Neste mesmo espírito, defendeu que em cada paróquia exista uma lista atualizada das famílias mais necessitadas, para que a caridade cristã seja concreta, organizada e eficaz.
O conferencista sublinhou igualmente a importância da presença do pároco em situações de sofrimento e emergência, mesmo quando aparentemente nada pode resolver, pois a simples proximidade do sacerdote constitui já uma presença consoladora e profundamente significativa.
Entre os principais desafios do ministério sacerdotal na atualidade, destacou a indiferença religiosa, particularmente entre os jovens, a solidão, as exigências do celibato e a crescente perceção do sacerdote como mero prestador de serviços religiosos.
Perante estas dificuldades, apontou diversos caminhos de superação: cultivar uma intensa intimidade com Deus, promover a vida em equipa entre sacerdotes, desenvolver interesses pessoais saudáveis, desenvolverem um hobby (escrita, música, ensino, agricultura), fortalecer a solidariedade com o arcipreste e os colegas e favorecer uma maior proximidade pastoral por parte do Bispo.
Dirigindo-se diretamente aos sacerdotes, deixou vários alertas concretos: reservar diariamente tempo para o silêncio e para a oração, rezar diante do sacrário como testemunho para os fiéis, cuidar da dignidade das celebrações, manter o recolhimento nos espaços sagrados, preparar cuidadosamente as homilias e anunciar um cristianismo exigente, sem ocultar a realidade da cruz, da conversão, da penitência e da esperança na vida eterna.
A reflexão terminou com um diálogo vivo e enriquecedor entre o orador e os ministros ordenados presentes, permitindo aprofundar diversos temas e partilhar experiências pastorais.
A Recoleção prosseguiu com a exposição do Santíssimo Sacramento, proporcionando um intenso momento de adoração e intimidade com o Senhor, fonte da verdadeira esperança e renovação sacerdotal. Seguiu-se o habitual almoço de confraternização, que fortaleceu os laços de comunhão entre presbíteros e diáconos, num ambiente de alegria e fraternidade.
Este encontro de ministros ordenados confirmou, uma vez mais, a importância das recoleções mensais como espaços privilegiados de formação permanente, renovação espiritual e fortalecimento da fraternidade sacerdotal. Num tempo de grandes desafios para a Igreja e para o ministério ordenado, estes encontros ajudam os pastores a reencontrar as razões profundas da sua vocação e a regressar às suas comunidades com renovado entusiasmo, confiantes na promessa de Cristo: «Não tenhais medo»!
Diác. Eduardo Pinto, in Voz de Lamego, ano 96/26, n.º 4851, de 20 de maio de 2026



