No passado dia 11 de abril, em Fátima, as Comissões de Proteção de Menores e Adultos Vulneráveis reuniram-se em encontro nacional, sob o mote “Comissão Diocesana: no prevenir e no cuidar”, num momento marcado pela reflexão, pela escuta e pela reafirmação de um compromisso claro: cuidar, proteger e defender a dignidade de cada pessoa, especialmente das mais vulneráveis.
Logo na sessão de abertura, foi sublinhado que este caminho não pode ser ignorado nem relativizado, pois toca diretamente a vida de vítimas e de pessoas que sofreram profundamente. Num ambiente de gratidão e reconhecimento, destacou-se o trabalho já realizado ao longo dos últimos anos, assumindo-se, com realismo, que nem tudo está concluído e que este é um percurso exigente, contínuo e irreversível. Ficou também vincado que as Comissões Diocesanas são o verdadeiro motor deste processo dentro da Igreja, sendo nelas que assenta o trabalho de proximidade, acompanhamento e transformação.
Ao longo do encontro, emergiu com particular força a ideia de que a proteção não pode ser pensada de forma isolada, mas como uma verdadeira “ecologia de cuidado”, onde família, escola, comunidade, pares e mundo digital se interligam. Num tempo de rápidas mudanças sociais, tornou-se evidente que os riscos e as vulnerabilidades exigem novas respostas, mais centradas na relação, na escuta e no reconhecimento da pessoa. Proteger não é apenas intervir quando o problema surge, mas construir relações sólidas que previnam e humanizem.
Foi igualmente sublinhado que a missão das Comissões passa hoje, de forma muito concreta, por reconstruir pontes entre gerações, num mundo em que as referências se transformaram profundamente. Proteger crianças, jovens e adultos vulneráveis já não significa apenas prepará-los para o mundo que conhecemos, mas acompanhá-los num mundo em constante mudança, que também nós estamos ainda a aprender a compreender.
A reflexão trouxe ainda à consciência a gravidade dos abusos sexuais, reconhecidos como dos traumas mais profundos que uma pessoa pode sofrer, com consequências duradouras em todas as dimensões da vida. Neste contexto, o mundo digital surge como um espaço ambivalente, simultaneamente de oportunidade e de risco, exigindo uma atenção redobrada, formação contínua e um compromisso ético firme. A prudência, enquanto virtude humana essencial, foi apontada como um caminho a educar e a cultivar.
O encontro abriu também horizontes sobre o futuro das Comissões, reforçando a necessidade de consolidar o trabalho já realizado, investir na formação e aprofundar uma cultura de proteção que seja transversal a toda a vida da Igreja. Mais do que estruturas formais, estas Comissões afirmam-se como expressão concreta de uma Igreja que quer ser lugar seguro, espaço de cuidado e sinal credível de confiança.
Durante a tarde, num momento de particular densidade, foi deixada uma interpelação exigente a todos os participantes: o “sim” assumido neste caminho não pode ser apenas uma decisão do passado, mas uma escolha continuamente renovada, questionando-se se permanece hoje a mesma disponibilidade para continuar a dizer esse “sim”.
Foi igualmente abordada a questão das compensações às vítimas, sublinhando-se que o processo em curso segue o que estava definido desde o início, de acordo com regulamento próprio. Alertou-se para o ruído público gerado em torno desta matéria, recordando que ninguém tem o direito de instrumentalizar ou expor as vítimas. Foi ainda referido que os valores atribuídos se encontram em linha com os critérios habitualmente praticados pelos tribunais, apelando-se a que este tema seja tratado com verdade, responsabilidade e respeito.
A Comissão Diocesana de Lamego esteve presente, em plena comunhão com as restantes Comissões do país, assumindo com renovado empenho a missão que lhe está confiada. Reafirma, igualmente, a sua total disponibilidade para continuar a acolher, escutar e acompanhar todos os que necessitem, mantendo-se sempre aberta a quem procure apoio, orientação ou, simplesmente, um espaço seguro de escuta.
O encontro terminou com o compromisso de continuar este caminho com coragem, verdade e esperança, não uma esperança passiva, mas uma esperança que se constrói, se vive e se traduz em ações concretas de cuidado e proteção. No horizonte de todo este trabalho, ecoou uma interpelação decisiva: se a Igreja não cuida, não protege e não ama, quem o fará?
Pe. Amadeu, in Voz de Lamego, ano 96/21, n.º 4845, de 15 de abril de 2026



