Decorreu nos dias 27 a 30 de março, no Seminário de Lamego, mais um Convívio Fraterno na nossa diocese, o 1499. Sob o tema “Reconheceram-n’O ao partir do Pão”, inspirados nos discípulos de Emaús, 26 jovens puderam fazer a experiência do verdadeiro encontro com Cristo, com os irmãos e consigo mesmos. Ficam os testemunhos de dois convivas do 1499:
Há muito que sou “perseguido” por um enigma, uma dúvida que me acompanha desde sempre; qual é o sentido para a vida? Os grandes pensadores de toda a história tentaram arranjar as suas respostas; Aristóteles defende que é a contemplação, Platão defende que é uma vida guiada pela Razão. No entanto, eu acho que isso são meios para uma vida mais encantadora, sim, mas não é o seu fim último.
Permitem-me partilhar convosco um pouco da história da minha vida antes de eu tentar apresentar a minha resposta a essa grande questão, e de certa forma, o meu testemunho. Quando tinha 3 anos de idade a mulher que me meteu ao mundo deixou-me num lar e nunca mais a vi. Tinham problemas com o álcool. Aos meus 6 anos, pude abraçar e ser acolhido por uma nova família. Durante vários anos, e ainda hoje vivo com umas sequelas, isolava-me em mim mesmo. Não deixava que as pessoas soubessem muito de mim, sempre com aquele medo de não ser aceite, de ser renegado. Sentia que precisava de mostrar a todos era uma boa pessoa, que era útil e assim sentia que era uma mais-valia na vida das pessoas e que dessa forma eu não seria descartado.
Nessa altura a minha relação com o nosso Senhor era efémera. Fui escuteiro então ia às Missas no Sábado após as actividades, mas andava de coração fechado, construí uma grande muralha pois achava que assim eu andava protegido. Nunca procurei ajuda, tinha a estúpida ideia que tinha de ser eu a fazer as coisas e tinha de me provar a mim mesmo que conseguia encontrar a paz. Paz… Era exatamente aquilo que eu mais queria, não era felicidade, nunca quis andar eufórico no mundo, somente o sossego existencial.
Eu não sabia quem era. A questão do Eu ensurdeceu-me e andava como sem alma pelo mundo a fora. Na faculdade decidi estudar filosofia. A questão do Eu e do sentido para a vida acompanharam-me nessa jornada. Mas pude olhá-las com um olhar diferente. Percebi que o “Eu” não é algo, ontologicamente, singular. A única singularidade que o “Eu” tem é o corpo físico, tudo o resto só existe devido ao outro. A construção da personalidade não seria possível sem a presença e a convivência com outras pessoas. Até para o corpo, a parte mais singular do “Eu”, precisa do outro e do resto da Natureza para puder permanecer cá. Nesse momento tinha chegado a uma certeza: eu só existo por causa dos outros, não consigo ter uma vida isolada, é ontologicamente impossível.
O meu momento de conversão começou nesse momento. Lembro-me de estar numa Missa na Covilhã e de ter a certeza que não conseguia resolver os meus traumas sozinho e de me ter confessado ao Pai que sem Ele eu não conseguia. Já tinha a certeza de que o Eu só existe com os outros, então a resposta para o sentido da vida teria de partir dessa certeza. Comecei a frequentar grupos de jovens, comecei a participar em retiros, como por exemplo a Missão País, fiz um retiro monástico com as monjas de Belém e também o CF em Lamego. Disse sim a todos, pois sabia que a minha relação com Deus estava frágil. Frágil da minha, nunca da parte Dele. Esses três retiros que fiz serviram para limpar a casa e sarar feridas. Apelei a Deus para que me dessa paz e o Pai mostrou-me como eu posso viver em paz e a resposta é; em comunhão com o próximo!
Nós não conseguimos existir e permanecer no mundo de forma isolada. Isso na verdade é um pesadelo, sentir que estamos sós no mundo. Antes de entrar no CF 1499 de Lamego, já tinha a certeza de que uma vivência em comunhão era o sentido da vida e a paz que procurava. No entanto foi lá, no CF em Lamego, que pude perceber que o estilo de vida que eu levava não cultivava uma vivência em comunhão. Ainda queria as coisas para mim, no fundo ao querer as coisas para mim tinham uma vivência egocêntrica, uma vivência egoísta, o que é a antítese da vida em comunhão.
Entregar-se ao próximo! Somente sobre esse solo é que nasce a paz e uma vivência em comunhão. É ao sermos amor ao próximo que podemos existir num amor coletivo. Cristo veio à terra para nos ensinar essa Verdade, sê amor para que possas existir no amor e na comunhão. Ser a pedra da Igreja em construção é olhar pelos outros e ter uma existência de entrega ao próximo. Milagre nada mais é que a possibilidade de ser uma nova existência, e esse é o nosso sentido da vida, mostrar aos outros o Milagre do Amor de Deus, a paz como uma vivência em comunhão.
Orlando Carmona, CF 1499
Se alguém, algum dia, me perguntar que palavra seria a mais correta para descrever tudo o que eu vivi nos Convívios Fraternos de Lamego eu diria: “Presença”! Escolheria a palavra “presença” porque, comparando com todo o tipo de diversidade de experiências que já vivenciei, foi nos Convívios que eu senti, realmente, algum tipo de presença. Não só senti a presença de Jesus em mim, mas também a senti nos outros, mas ainda melhor que tudo isso, eu senti que transmitia Deus aos outros sem nem o reparar.
Ultimamente, tenho me apercebido que os Convívios Fraternos são, realmente tudo aquilo que dizem ser, a tal família nomeada “a seita dos abraços”. Inicialmente, não consegui perceber efetivamente a razão por detrás dessa denominação, mas mais recentemente “abri os meus olhos” para o real motivo da mesma, pois tal como diz Mário Quintana: “Abraçar é dizer com as mãos o que a boca não consegue. Porque nem sempre existe palavra para dizer tudo."
Um “simples” abraço apertado de um irmão fraterno transmite sensações e sentimentos que por vezes as palavras não o conseguem fazer. Por isso, SIM, os Convívios Fraternos podem parecer uma “seita” mas, principalmente, são uma FAMÍLIA. Uma família que não necessita de palavras comunicadas para saber que todos estarão lá para cada integrante da mesma, quando precisarem, mas principalmente quando acharem que não precisarem.
Mariana Silva, CF 1499
in Voz de Lamego, ano 96/21, n.º 4845, de 15 de abril de 2026



