Santo Agostinho é pastor de almas e padroeiro secundário da Diocese de Lamego
Nos dias 5 e 6 de março, em Lamego, decorreu a formação anual do clero da nossa diocese. Neste ano jubilar dos 250 anos da Dedicação da Catedral, a formação foi dedicada a S. Agostinho, padroeiro secundário da diocese e um dos expoentes máximos da teologia cristã. Orientou a formação o P. Isidro Pereira Lamelas, franciscano e natural de Penude – portanto, também ele oriundo da nossa diocese. Professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, é um dos maiores especialistas em Portugal sobre o pensamento dos Padres da Igreja (teólogos e pastores dos primeiros oito séculos de Cristianismo) e, concretamente, sobre S. Agostinho. Nos últimos anos tem orientado a publicação em Portugal de vários volumes com os sermões deste nosso padroeiro. O contexto e o orientador tornaram, por isso, a formação especialmente oportuna e enriquecedora.
Toda a formação teve como base a dimensão menos conhecida e estudada do trabalho de S. Agostinho, ainda que tenha sido aquela à qual dedicou a maior parte do seu tempo: a dimensão pastoral da sua vida como Bispo de Hipona, particularmente através da pregação.
Assim, na primeira conferência, o P. Isidro Lamelas partilhou uma reflexão sobre o sentido da Dedicação de uma Igreja, partindo dos sermões de S. Agostinho sobre este tema. O Doutor da Graça (como historicamente ficou conhecido) exorta os fiéis do seu e do nosso tempo a tomarem consciência de que o templo onde a Santíssima Trindade quer habitar, muito mais do que o templo de pedras, é o coração dos batizados, quer individualmente, quer reunidos em comunidade. Usando o edifício como analogia, desafia os cristãos a construir a verdadeira casa de Deus, tendo como alicerces os ensinamentos dos Profetas e dos Apóstolos; como chão, a humildade; como paredes, as preces e sermões; como lâmpadas, o testemunho de uma vida coerente e enraizada em Cristo. Deste modo, cada cristão é chamado a ser como as colunas do templo, sustentando os mais débeis e como o telhado, que protege os abandonados.
A segunda conferência partiu do célebre sermão “Sobre os Pastores”, no qual S. Agostinho reflete sobre as responsabilidades daqueles que são chamados a exercer, na Igreja e em favor dos irmãos, o ministério pastoral. A consciência que ele mesmo tinha da exigência da missão - que o levara a aceitar com muita relutância o ministério presbiteral e, mais tarde, episcopal – transparece na exigência das palavras que dirige neste sermão. Baseando-se em textos do Profeta Ezequiel, S. Agostinho dá critérios para distinguir entre o bom pastor – aquele que pensa primeiro na salvação das ovelhas, do que na sua, e as serve com diligência – e o mau pastor – aquele que apenas procura servir-se a si mesmo, alimentando-se do leite das ovelhas (símbolo das riquezas) e revestindo-se da sua lã (símbolo da busca da honra e da vaidade). Usando estes critérios como exame de consciência, o pastor reconhece que deve prestar contas a Deus da sua administração e, por isso, renovar-se sempre na sua entrega segundo o Coração de Cristo, Bom Pastor.
A terceira conferência decorreu na noite de quinta-feira, no auditório do Museu Diocesano, aberta ao público em geral e dedicada à vida de S. Agostinho. Foi, por isso, uma excelente oportunidade para os cristãos da Igreja de Lamego conhecerem melhor este seu padroeiro, um dos mais documentados de toda a História da Igreja. Sublinhando o seu trajeto de ovelha tresmalhada a pastor, o P. Isidro assinalou como a aventura da vida de S. Agostinho na sua busca da felicidade, que eventualmente reconheceu no rosto de Deus revelado em Jesus Cristo, é também a nossa aventura. A sua resposta ao contexto histórico que habitou, complexo e conturbado como o nosso – S. Agostinho viveu a queda de Roma e o fim de uma civilização centenária – dá critérios que também nós podemos adotar, reconhecendo com humildade e serenidade o carácter transitório de todas as situações e estruturas históricas: o Império Romano caiu, como todos os impérios que lhe são anteriores e subsequentes – só o Reino de Deus tem promessa de eternidade.
A última conferência, na manhã de sexta-feira, foi dedicada a alguns aspetos dos sermões quaresmais de S. Agostinho. O ciclo litúrgico da Quaresma e Páscoa era já idêntico ao nosso, ainda que se vivesse de forma mais clara o seu carácter batismal, com todos os ritos próprios para aqueles que seriam batizados na Vigília Pascal. S. Agostinho olha para a Quaresma a partir da consideração do ser humano como um peregrino, que vive esta vida a caminho da Pátria, a vida eterna junto da Trindade. Neste sentido, toda a vida cristã tem um carácter quaresmal, mas este é um tempo em que esta dimensão é sublinhada de modo especial. As práticas tipicamente quaresmais do jejum, da oração e da esmola são meios pelos quais cada crente deve acender e reorientar o desejo de Deus e viver a espiritualidade da misericórdia, centrada em Cristo e na Sua “esmola”: a Sua Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição.
Por fim, resta agradecer ao P. Isidro Pereira Lamelas a disponibilidade para orientar esta formação, tão oportuna, na qual nos foi dado aprofundar um aspeto menos conhecido - mas talvez ainda mais útil e prático para a missão pastoral - da vida e obra de S. Agostinho, esse gigante do pensamento humano e cristão, que temos a graça de ter por padroeiro.
Pe. Tiago Torres, in Voz de Lamego, ano 96/16, n.º 4841, de 11 de março de 2026



