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Vigília Pascal

VIGÍLIA NA NOITE SANTA

1. «Este é o Dia que o Senhor fez!» (Sl 118,24). Aleluia! Este é o Dia que o Senhor nos fez! Aleluia! Este é o Dia em que o Senhor nos fez! Aleluia! «Por isso, estamos exultantes de alegria» (Sl 126,3).

2. Este é o Dia em que desfiamos com amor o rosário das tuas maravilhas, tantas elas são, percorrendo a avenida das tuas Escrituras desde a Criação até à Páscoa, desde a Páscoa até à Criação. Tanto faz. Porque neste Dia novo e belo o tempo não nos mede e nos afasta e nos cataloga em séculos e milénios, mas põe-nos todos a conviver lado a lado, todos irmãos, todos contemporâneos. É assim que lemos e compreendemos que no teu «Filho amado», Jesus Cristo, Imagem tua e «primogénito dos mortos», «tudo foi criado» (Cl 1,16), «e sem Ele nada foi feito» (Jo 1,3). Lemos e compreendemos que o «teu Filho, Jesus Cristo, não foi Sim e não, mas unicamente Sim» (2 Cor 1,19). Passeámos assim no jardim da tua Criação boa e bela, visitámos as suas 452 palavras (Gn 1,1-2,4a), e nelas não encontrámos, de facto, um único «não». Tudo céu. Nenhuma parcela de chão envenenado. Se o teu Filho amado, Jesus Cristo, Imagem tua e primogénito dos mortos, foi sempre Sim e nunca não, e se foi n’Ele que foram criadas todas as coisas, então a Criação inteira tem também de ser Sim, Sim, Sim, e nunca não. «E viu Deus que era Bom!», eis o selo do sentido que, por sete vezes, plenitude, Deus apôs à sua Criação, e assim a entregou ao homem para que dela cuidasse com desvelo e devoção.

3. Que belo mundo novo, Senhor, quiseste depositar nas nossas mãos! Que grande Sim nos confiaste, Senhor, antes de nós merecermos de Ti qualquer confiança! Visitámos depois o Egito opressor, e de lá, Tu nos libertaste, Senhor, fazendo-nos atravessar a pé enxuto o mar Vermelho, como se fosse uma «pradaria verdejante» (Sb 19,7). Vestíamos roupas brancas, trazíamos o coração em festa, e nos lábios um cântico novo, como sucede também ainda hoje, Senhor, neste Dia admirável da tua Ressurreição, em que cantamos outra vez com inefável alegria: «Minha força e meu canto é o Senhor! A Ele devo a minha liberdade!» (Ex 15,2).

4. Com Isaías e Ezequiel, recordámos depois as paisagens tristes e sombrias do nosso exílio, mas também da tua admirável proteção. Sim, o exílio verdadeiro não consiste simplesmente em estar longe de casa ou da pátria, mas sobretudo em tornar-se indiferente e insensível, sem causas, sem sonhos e sem esperas, gastando o nosso dinheiro com aquilo que não alimenta, e esquecendo o teu insistente convite: «Vinde e comprai sem dinheiro vinho e leite […]. Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom» (Is 55,1-3). Era assim que andávamos, Senhor, perdidos longe de ti e longe de nós. Mas também lá, à perdição em que andávamos, chegou a tua mão criadora, redentora, libertadora e carinhosa, e reconstruíste a nossa vida sobre a alegria, embelezaste o nosso rosto com óleo perfumado, e vestiste-nos com a veste branca dos teus filhos. E como se isto não enchesse a medida do teu amor sempre sem medida, ainda fizeste connosco uma Aliança nova, e deste-nos um coração novo e um espírito novo.

5. Coração novo, música nova, ensinada pelos Anjos nos campos de Belém: Gloria in excelsis Deo! Outra vez lado a lado, oh milagre da Escritura Santa, dois acontecimentos no tempo separados: o nascimento de Jesus e a sua morte e Ressurreição: os mesmos Anjos, as mesmas faixas a envolver o Menino e o Crucificado, o Menino depositado na manjedoura, o Crucificado depositado no sepulcro. Extraordinária acostagem do Menino e do Crucificado. E S. Paulo a descodificar o nosso Batismo, pelo qual somos sepultados com Cristo, para com Ele ressurgirmos para uma vida nova (Rm 6,3-5).

6. E assim chegamos sempre ao Ressuscitado. Àquele Jesus Cristo, Crucificado, Morto e Sepultado, segundo as Escrituras, que se levanta do chão raso e da folha plana de papiro ou de pergaminho ou de papel, elevando a nossa humana vida e a inteira Escritura Santa à sua Plenitude. Note-se que, nesta página admirável de Mateus, as mulheres, neste caso Maria Madalena e a outra Maria, não esperam pela madrugada de DOMINGO para saírem de casa, mas vão ver o túmulo de Jesus logo que termina o sábado, pouco depois do pôr-do-sol de sábado e de aparecerem as primeiras três estrelas no céu de Domingo! É esse o sinal de que acabou o sábado e se acende para sempre um dia novo, o primeiro dia da semana, o DOMINGO. 

7. Além disso, além da pressa sem nenhuma espera, nesta página sublime de Mateus, as mulheres não se ocupam a preparar os perfumes, não as move qualquer intenção de ungir com aromas o corpo de Jesus, não pensam em entrar no túmulo, não estão preocupadas com a pedra que fecha a entrada do túmulo como refere Marcos. Nesta página sublime de Mateus, Maria Madalena e a outra Maria vão simplesmente ver o túmulo. Acabam, no entanto, por ver muito mais. Aconteceu um grande terramoto, e um Anjo do Senhor desceu do céu como um relâmpago, aproximou-se, rolou a pedra do túmulo, e sentou-se soberanamente sobre ela (Mt 28,2-3). O sentar-se do Anjo sobre a pedra da morte indica domínio sobre a morte. É como estar sentado sobre um trono (cf. Mt 23,22).

8. Perante um tal esplendor e domínio fulminante, os guardas de serviço, que vigiavam um eventual furto do cadáver de Jesus, ficaram cheios de medo, e caíram por terra como mortos (Mt 28,4). Já não poderão testemunhar o dizer do Anjo. Às mulheres que tinham ido, desarmadas, simplesmente para ver o túmulo, o Anjo do Senhor diz para não terem medo, e desvenda o que elas sentem e pensam: «Sei que procurais Jesus, o Crucificado» (Mt 28,5), e entrega-lhes um novo e inaudito saber: «Não está aqui; foi Ressuscitado», e convida-as a irem ver o lugar onde jazia (Mt 28,6).

9. A pedra retirada do sepulcro e o facto de o Anjo se sentar sobre ela indicam o fim do domínio da morte. A pedra não é retirada para Jesus sair, mas para que as mulheres possam entrar e verificar a ausência do corpo de Jesus. E a ausência do corpo de Jesus aqui, neste lugar, bem conhecido de Maria Madalena e da outra Maria, que lá tinham estado sentadas na véspera a observar (Mt 27,61), mostra que a Ressurreição de Jesus não é menos real do que a sua morte. Não é, todavia, suficiente que as mulheres vejam o túmulo aberto e a ausência nele do corpo de Jesus. É necessário o anúncio da Ressurreição feito pelo Anjo. E é ainda o Anjo que as faz dar um novo passo em frente, incumbindo-as de uma imensa missão: «Ide dizer aos seus discípulos que Ele foi ressuscitado dos mortos e vos precede na Galileia» (Mt 28,7). E elas partiram imediatamente e, com alegria grande, correram a levar a notícia (Mt 28,8). Mas pelo caminho são surpreendidas pelo próprio Ressuscitado, que as convida à alegria e a não terem medo, e reformula, de forma maravilhosa, o último dizer do Anjo: onde o Anjo tinha dito: «Ide dizer aos seus discípulos», Jesus diz agora: «Ide dizer aos meus irmãos…» (Mt 28,9-10).

10. É também por isso que esta Noite é uma fulguração de Luz e Lume novo. Desde as brasas acesas, ao Círio Pascal aceso, ao nosso coração aceso como os discípulos de Emaús, que sentiam o coração a arder. É também por isso que o Batismo começou por ser chamado «Iluminação», sendo a Vigília Pascal também a grande Noite Batismal. E cada batizado deverá levar para sempre a arder no coração este Lume Novo. Vem, Senhor Jesus! Aleluia!

 

Lamego, 04 de abril de 2026, Homilia na Vigília Pascal

+ António, vosso bispo e irmão

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