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Quinta-Feira Santa

AOS OMBROS E NO CORAÇÃO  
Quinta-Feira Santa, Missa Crismal  
Is 61,1-3a.6a.8b-9; Sl 89; Ap 1,5-8; Lc 4,16-21

1. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me Ungiu e me Enviou para dar o Evangelho aos pobres»: assim se exprime alguém, que se apresenta em primeira pessoa, no texto de Isaías 61, dizendo-se investido pelo Espírito de Deus, ungido por Deus e enviado por Deus para levar o Evangelho aos pobres, aos aflitos, aos deserdados, aos injustiçados, aos enlutados. Quem é este alguém que aqui se apresenta tão cheio de Deus e do seu Evangelho para levar uma torrente de graça aos pobres e descartados?

2. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me Ungiu e me Enviou, repete Jesus, lendo Isaías na sinagoga de Nazaré (Lc 4,18), e assumindo sobre si a Unção e a missão do Evangelho, que acabou de ler no Livro de Isaías. Jesus levantou-se para fazer a leitura litúrgica (anaginôskô), e sentou-se para fazer a homilia. E «os olhos de todos», informa o narrador, «estavam fixos (verbo atenízô) nele!», num misto de espanto, de encanto e de esperança (Lc 4,20). Registado fica o início da homilia de Jesus, que começa assim: «Hoje cumpriu-se esta Escritura nos vossos ouvidos!» (Lucas 4,21). Nesta sua primeira apresentação pública, Jesus não diz nada de novo! Na sua boca estão só palavras antigas! Excelente maneira de Jesus se apresentar como «Filho da Escritura», Leitor atento e conhecedor da Escritura por dentro: lê os Profetas, concretamente Isaías, e pede-lhe emprestadas as Palavras, e, na sua homilia, reclama o nosso ouvido como pátria para a Palavra Hoje, aponta para a Lei de Deus, concretamente para o Deuteronómio, que é o Livro do «Escuta, Israel!», e em que o Hoje se faz ouvir por mais de 70 vezes!

3. Nunca ninguém terá iniciado uma homilia de forma tão performativa. E nunca nenhum homileta terá tido uma assembleia tão atenta: todos tinham os olhos espetados nele. Sem sucesso, porém. As palavras não entram pelos olhos, mas pelos ouvidos! Se tivessem sido ouvidas, tinham entalado a assistência. Como o «Hoje» nos entala no tempo. É Hoje, devia ser Hoje que o Evangelho nos entrasse pelos ouvidos. Se não entra, é porque os temos obstruídos por mato e por silvas. E então temos de rezar repetidamente o Salmo 40, onde dizemos: «Senhor, escavaste-me os ouvidos» (v. 7). Só assim, se cumprirá Hoje esta Escritura nos nossos ouvidos. «Se Hoje ouvirdes a voz do Senhor…», como canta o Salmo 95. Não é por acaso que o Evangelho de Lucas traz o «Hoje» para a boca da cena por onze vezes!

4. Guardemos, pois, Hoje, no coração, amados irmãos no sacerdócio, esta Unção e esta Dedicação ao Evangelho. Sim, somos um presbitério de Ungidos. E só assim, configurados com Cristo, cristificados, podemos viver e agir in persona Christi Capitis ou in persona Christi Servitoris, na pessoa de Cristo Cabeça do seu Corpo, que é a Igreja, e na pessoa de Cristo Servo do seu Corpo, que é a Igreja. É assim que dizemos Hoje, nesta Quinta-Feira Santa, a nossa identidade Sacerdotal e Diaconal.

5. «Encontrei o meu Servo David, e ungi-o com o meu óleo santo», cantávamos com o Salmo 89,21. Encontro e unção do rei segundo o coração de Deus (1 Sm 13,14). Mas também o sacerdote era ungido com o azeite santo, como é dito de Aarão num belo poema artisticamente construído em cascata: «Como é bom,/ como é belo,/ viverem unidos os irmãos.// É como azeite do bom sobre a cabeça,/ descendo pela barba,/ a barba de Aarão,/ descendo sobre a boca das suas vestes» (Sl 133,1-2).

6. Olhamos para o texto, e vemos o azeite de oliveira, perfumado com mirra, cinamomo, cálamo e cássia (Ex 30,22-33), a encharcar a cabeça e o cabelo de Aarão, a descer pela barba, e sobre a boca das suas vestes… A escrita é meticulosa e quer que se veja o azeite, não a descer pelo pescoço, mas por fora, encharcando o humeral, que é uma espécie de roquete que desce sobre os ombros até um pouco abaixo da cintura. Assim desce o azeite pelo humeral e pelas vestes, encharca depois o peitoral, que é uma bolsa quadrada, com 25 cm de lado, aplicada sobre o humeral, cobrindo o peito. Sim, quem escreve interessa-se que o azeite encharque o tecido que está sobre os ombros e sobre o peito do sacerdote. Sim, porque nas duas fitas do humeral que estão sobre os ombros, traz o sacerdote incrustadas duas pedras de ónix, uma sobre cada ombro, cada uma gravada com seis nomes das doze tribos de Israel (Ex 28,1-14). E, sobre o peito, no peitoral, traz o sacerdote doze pedras preciosas diferentes, e em cada uma delas está gravado o nome de uma das doze tribos de Israel (Ex 28,15-30), irmanadas, como se fosse uma joia familiar em unidade harmónica. Extraordinária simbologia! O sacerdote carrega aos ombros (Ex 28,12) e leva sobre o coração (Ex 28,29) todos e cada um dos filhos de Israel! É assim que se vê bem a missão do sacerdote. Mas vê-se igualmente bem que se trata de um povo todo ungido, todo sacerdotal e aromático.

7. Portanto, também vós, caríssimos Fiéis Leigos, batizados e crismados, sois, na verdade inteira, outros Cristos, porque fostes também Ungidos com o óleo do Crisma, que recebe o seu nome de Cristo. Também vós, amados irmãos, Fiéis Leigos, fostes Ungidos na fronte, no Batismo e no Crisma, com o óleo do Crisma. Além de Ungidos na fronte, no Batismo e no Crisma, os Sacerdotes foram ainda Ungidos nas mãos com o mesmo óleo do Crisma, e o Bispo foi-o ainda na cabeça. Também as igrejas e os altares são ungidos com o óleo do Crisma no dia da sua Dedicação.

8. É este óleo do Crisma, com que todos somos ungidos no coração, identificando-nos assim com Cristo, que vai ser, nesta Missa Crismal, confecionado e consagrado pelo Bispo, com o testemunho e cooperação dos Sacerdotes. Vão igualmente ser benzidos o óleo dos enfermos, destinado a servir de remédio e de alívio aos doentes, e o óleo dos catecúmenos, destinado a preparar e dispor os catecúmenos para o Batismo.

9. O óleo do Crisma que vamos consagrar, e os óleos dos enfermos e dos catecúmenos que vamos benzer, constituem, no meio de nós, um autêntico manancial ou programa de vida. Igual ao de Cristo. Outros Cristos, Ungidos no coração, para levar o anúncio do Evangelho a todos os nossos irmãos. Se somos outros Cristos, Ele está connosco, em nós, no meio de nós. A Ele a honra, a glória e o louvor para sempre. Amém.

 

Lamego, Igreja Catedral, Missa Crismal, 02 de abril de 2026

+ António, vosso bispo e irmão

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