PAIXÃO DO SENHOR
Sexta-Feira Santa. Celebração da Paixão do Senhor
Is 52,13-53,12; Sl 31; Hb 4,14-16; 5,7-9; Jo 18,1-19,42
1. Foi-nos dada a graça de nos reunirmos aqui, na Casa de Deus, nesta Sexta-Feira Santa, para celebrarmos, unidos de alma e coração à Igreja inteira, a Una e Santa, a Paixão do único Senhor da nossa vida, «Aquele que nos ama» (Ap 1,5), Jesus Cristo.
2. E foi-nos dado seguir, passo a passo, com a conversão do coração e o louvor no coração, o imenso relato da Paixão do único Senhor da nossa vida, a partir do Evangelho segundo S. João (18,1-19,42). Foi assim que atravessámos o Cédron e entrámos no «jardim». É de noite, mas arde a LUZ, a LUZ, a LUZ. É verdade que já não estamos todos. Judas perdeu-se na NOITE, na NOITE, na NOITE (Jo 13,30). Virá depois com archotes e lanternas, mísero sucedâneo da LUZ, e com armas (Jo 18,3), como um salteador. Vem prender a LUZ, mas cai encandeado (Jo 18,6). Tem de ser a LUZ a ofuscar-se por amor e a entregar-se a ele por amor. Neste ponto preciso, referem os relatos de Mateus e de Marcos que nós fugimos todos, abandonando-o (Mt 26,56; Mc 14,50). E fugidos andaremos, e perdidos, na noite e no frio, até sermos por Ele outra vez encontrados, acolhidos e recolhidos. Mas já, entretanto, Pedro, perdido, se acolhe a outra luz e se aquece a outro lume (Jo 18,18). E, interpelado, nega ter andado com Jesus, nega ter alguma coisa a ver com Jesus, nega «ter parte» com Jesus. Nega mesmo conhecer Jesus (Mc 14,67-71; Jo 18,17-27).
3. Oportunidade de ouro para verificarmos a qualidade do testemunho que damos de Jesus. Também aqui a página do Evangelho é admirável e implacável. Jesus acaba de dizer ao Sumo Sacerdote que não o interrogue a Ele, mas que interrogue aqueles que ouviram os seus ensinamentos, pois não falou às escondidas, mas em público (Jo 18,19-21). Impressionante verificarmos que, ao mesmo tempo que Jesus faz esta afirmação dentro do Palácio do Sumo Sacerdote, Pedro esteja a ser interrogado cá fora, e responda negando tudo! (Jo 18,17.25-27).
4. Mas ainda vamos a tempo de contemplar como, sob o olhar do Crucificado e do nosso, quatro soldados levam as coisas de Jesus, que, para o efeito, dividem em quatro partes: uma para cada um deles (Jo 19,23). O contraponto, belo, de inexcedível beleza, vem de quatro mulheres (a mãe de Jesus, / a irmã de sua mãe, / Maria, mulher de Cléofas, / e Maria Madalena), que não levam as coisas de Jesus, mas se abraçam à Cruz de Jesus como se a Cruz fosse uma pessoa (Jo 19,25). Implicação para nós: os soldados levam as coisas de Jesus, mero espólio a que tinham direito. As mulheres abraçam o Senhor da Cruz, e levam consigo o amor de Jesus!
5. Mas também não pode passar despercebido aos nossos olhos que, neste IV Evangelho, as pessoas mais ligadas a Jesus são inquestionavelmente Maria, sua Mãe, e João Evangelista, aquele que se reclina sobre o peito de Jesus (Jo 13,25). É espantoso, mas ao longo de todo o Evangelho, o Evangelista nunca se refere a Maria e a João pelo seu nome, mas sempre pela sua relação com Jesus. Assim, não se fala nunca de Maria, mas da mãe de Jesus, da sua mãe; não se fala nunca de João, mas do outro discípulo, aquele que Jesus amava! Fica claro para nós, amados irmãos e irmãs: a nossa identidade não está, no nosso nome, mas na qualidade da nossa relação com Jesus!
6. Não percamos de vista a Cruz de Jesus, que ocupa o centro deste Dia. Em finais do séc. IV, a peregrina Egéria, oriunda da vizinha Galiza, visitou demoradamente os Lugares Santos. Diz-nos ela, no seu (Itinerarium, 36,5; 37,3), que a Santa Cruz era então exposta à adoração dos fiéis duas vezes no ano: em 14 de setembro e em Sexta-Feira Santa. Egéria descreve assim a adoração de Sexta-Feira Santa: «Desde as oito horas da manhã até ao meio-dia […], todos passavam, um por um: inclinam-se, tocam a Cruz com a fronte, e depois com os olhos a Cruz e a inscrição, a seguir beijam a Cruz e saem, sem que ninguém toque com a mão na Cruz».
7. A liturgia deste Dia da Paixão do Senhor divide-se em três partes: 1) a Liturgia da Palavra seguida da grande Oração Universal; 2) a Adoração da Cruz do Senhor; 3) a distribuição da Sagrada Comunhão.
8. Durante a Adoração da Cruz do Senhor, somos hoje fortemente convidados, dadas as circunstâncias por todos conhecidas, a mostrar e vincar a nossa comunhão com a Igreja de Jerusalém e da Terra Santa, depondo aos pés da Cruz do Senhor a nossa oferta. Recordo que foi o Papa Leão XIII que instituiu, em 1887, a Sexta-Feira Santa como Dia de oração e de ajuda à Custódia dos Lugares Santos e à Igreja presente na terra de Jesus. Adoremos a Cruz de Jesus e façamos uma carícia aos nossos irmãos sofridos da terra de Jesus. Amém.
Lamego, 03 de abril de 2026, Homilia na Celebração da Paixão do Senhor
+ António, vosso bispo e irmão



