CEIA DO SENHOR
Quinta-feira santa, missa vespertina da Ceia do Senhor
Ex 12,1-8.11-14; Sl 116; 1 Cor 11,23-26; Jo 13,1-15
1. Com esta celebração da Ceia do Senhor, em Quinta-Feira Santa, a Igreja Una e Santa reacende a memória da instituição da Eucaristia, do Sacerdócio e da Caridade, e dá início ao Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição do seu Senhor, que se prolonga até às Vésperas II do Domingo da Ressurreição. O Tríduo Pascal constitui o ponto mais alto do Ano Litúrgico, de onde tudo parte e aonde tudo chega, coração que bate de amor em cada passo dado, em cada gesto esboçado, em cada casa visitada, em cada mesa posta, em cada pedacinho de pão sonhado e partilhado. É assim que Deus nos dá a graça de caminhar durante todo o Ano Litúrgico, dia após dia, Domingo após Domingo, sempre partindo da Páscoa do Senhor, sempre chegando à Páscoa do Senhor.
2. Neste Dia Santíssimo, é-nos dada a graça de poder escutar um dos mais antigos e intensos relatos da Ceia do Senhor: «Eu (egô) recebi do Senhor o que também vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, recebeu o pão, e dando graças, partiu-o, e disse: “Isto é o meu corpo, que é para vós; isto fazei para memória de mim”. Do mesmo modo fez com o cálice, depois da ceia, dizendo: “Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; isto fazei, sempre que o beberdes, para memória de mim”. Portanto, sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, estais a anunciar a morte do Senhor até que Ele venha» (1 Coríntios 11,23-26).
3. Atravessando o relato, deparamo-nos com uma sequência verbal riquíssima, que mostra bem como a vivência da Eucaristia transforma a nossa vida desde dentro, desde o coração, sístole e diástole, ao mesmo tempo sangue e amor a circular nas nossas veias, impulsionando-nos a conjugar em cada dia os verbos fundamentais da Eucaristia: receber, bendizer e agradecer,/ partilhar e dar,/ comemorar, anunciar e esperar. Não posso deixar de estremecer quando oiço Paulo a dizer em primeira pessoa: «Eu (egô) recebi do Senhor o que também vos transmiti». «Eu recebi do Senhor». Paulo recebeu do Senhor mão na mão. Como é que pode ficar quieto perante tão pessoalíssima relação! Como é que não há de transmitir um dom que não pode possuir! «Anunciar a morte do Senhor». Eis o grande afazer de Paulo. Não, não se trata de vestir de luto e de se alimentar de lágrimas. Tudo ao contrário. Anunciar a morte do Senhor é anunciar a dádiva da vida por amor, para sempre e para todos. Amados irmãos e irmãs: estremeçamos nós também, pois também é direta e pessoal a nossa relação com o Senhor, e anunciemos nós também a dádiva da vida por amor, que bem vemos no pão e no vinho que estão sobre este altar.
4. Tivemos Hoje também a graça de ouvir o colorido relato da Páscoa primeira, celebrada pelo Povo hebreu no Egito, conforme o relato do Êxodo 12,1-14. «Páscoa» quer dizer «passagem», e põe em cena «passageiros». Com os antigos pastores beduínos seminómadas, que preenchem a memória da pré-história de Israel, aprendemos a passar festivamente para um tempo novo, do inverno para a primavera, numa festa noturna, ao luar, na primeira lua-cheia da primavera, que marca o início da transumância ao encontro de novas pastagens e de vida nova. Com os hebreus, no Egito, sedentarizámos e atualizámos a festa da primeira lua-cheia da primavera dos antigos pastores seminómadas de Israel, e fomos levados, por graça, a passar da escravidão para a liberdade, que é um caminho sempre novo, nunca terminado e sempre a recomeçar, com a cintura apertada, sandálias nos pés, cajado na mão, lume novo aceso no coração. Com Jesus Cristo, fomos, também por graça, levados a passar do pecado para a graça, da soleira da porta para a mesa, da morte para a vida em abundância, da nossa tenda de peregrinos para a Casa hospitaleira do Pai. É assim que nós, por graça feitos «filhos no Filho», aprendemos a ser peregrinos e hóspedes, tranquilamente sentados em Casa e à Mesa daquele único Senhor que servimos e que, paradoxalmente, nos serviu primeiro a nós.
5. É aí que estamos todos, meus irmãos e irmãs. Aí, entenda-se, em Casa e à Mesa, hospedados. E é aí que Jesus se dirige a Pedro e a cada um de nós, e diz: «Se não te lavo, Pedro, não terás parte comigo!» (João 13,8). Isto é, não participarás da minha vida por amor Dada e Recebida (João 10,17-18). «Ter parte com» Cristo é participar no seu supremo serviço de amor até dar a vida para receber a vida. Está aí, na participação na vida de Jesus, no modo de viver de Jesus, a fonte do nosso sacerdócio ministerial, mas também do sacerdócio comum dos fiéis.
6. Por isso, Jesus diz, num imenso dizer de revelação ainda a retinir nos nossos ouvidos e a ecoar em tudo o que fazemos: «Como Eu vos fiz, fazei vós também!» (João 13,15). Vê-se bem, meus irmãos e irmãs, que não é tanto o que se faz que conta. Conta muito mais o como se faz. O segredo é dar a vida por amor, para sempre, para todos. Jesus é o único Mestre que ensina a Viver desta maneira. E é assim que fica bem à vista do nosso coração o significado da instituição da Eucaristia, do Sacerdócio e da Caridade.
7. Convido todos os meus irmãos no Sacerdócio, no Batismo e no Crisma, a percorrer e a reviver, rezar e contemplar as últimas decisivas vinte e quatro horas de Jesus, desde agora até perto das 18h00 de amanhã, Sexta-Feira Santa da Paixão do Senhor. O ritmo contemplativo é este:
18h00 = Ceia Primeira!
21h00 = Getsémani
24h00 = Prisão de Jesus
03h00 = Pedro nega e o galo canta
06h00 = Jesus diante de Pilatos
09h00 = Crucifixão de Jesus
12h00 = as trevas em vez da Luz!
15h00 = Morte de Jesus
18h00 = Sepultamento de Jesus
Nestas vinte e quatro horas, acompanhemos Jesus no seu caminho de Amor sem limites. Há muita coisa aqui que contemplar! Amém.
Lamego, 02 de Abril de 2026, Quinta-Feira Santa, Missa da Ceia Senhor
+ António, vosso bispo e irmão



